Comemorações dos 25 Anos da Classificação dos Monumentos Naturais de Sesimbra
No próximo dia 7 de maio, sábado, completam-se 25 anos da Classificação dos Monumentos Naturais da Pedreira do Avelino, no Zambujal, e dos Lagosteiros e da Pedra da Mua, no Cabo Espichel.
Para assinalar esta data, a Câmara Municipal promove neste mesmo dia, às 15.30 horas, na Igreja de Nossa Senhora do Cabo Espichel, a cerimónia de distinção, com o Medalhão da Vila de Sesimbra, dos professores Luiz Saldanha, a título póstumo, Miguel Telles Antunes e António Galopim de Carvalho, em reconhecimento pelos seus contributos para a classificação destas três jazidas de pegadas de dinossauros.
A iniciativa, aberta ao público, vai lembrar o trabalho desenvolvido pelos três investigadores neste processo, desde a descoberta dos vestígios de dinossauros na Pedra da Mua, em 1971, pelo professor Luiz Saldanha, no seguimento de uma visita ao local, a convite de apanhadores de algas, no âmbito da sua tese de doutoramento sobre a fauna e flora da costa da Arrábida.
Na sequência desta descoberta, Luiz Saldanha e Miguel Telles, à época professor de ciências geológicas na Universidade de Lisboa, desenvolveram uma profunda investigação sobre o património natural nesta zona, e acabaram por descobrir vestígios da presença de dinossauros nos Lagosteiros. No decorrer deste trabalho, Miguel Telles teve também conhecimento, através de trabalhadores das pedreiras, da jazida da Pedreira do Avelino, no Zambujal.
Nos anos 90, Galopim de Carvalho, que era diretor do Museu Nacional de História Natural e da Ciência teve um papel decisivo no processo de classificação destes monumentos, ao sensibilizar o poder político para a necessidade de proteção dos mesmos, o que culminou na publicação do Decreto 20/97, de 7 de maio, que classificou as jazidas da Pedra da Mua, Lagosteiros e Pedreira do Avelino, como Monumentos Naturais.
Refira-se que estas jazidas são datadas entre o Jurássico superior e o Cretácico inferior, e são, atualmente, três dos sete monumentos naturais de Portugal.
Incluída nas comemorações, realiza-se no sábado, às 10.30 horas, uma visita à Pedreira do Avelino, no Zambujal, acompanhada pelos professores Paulo Sá Caetano e Vanda Faria Santos. Neste local, passearam há mais de 155 milhões de anos dinossauros adultos e um bebé de 2 anos.
Programa
15.30h - Abertura da sessão
Francisco Jesus, Presidente da Câmara Municipal de Sesimbra
15.40h – O conhecimento geológico de Sesimbra - evocação de Miguel Ramalho e Jacques Rey,
Paulo Sá Caetano (FCT NOVA), Ana Azerêdo (FCUL), Vanda Santos (FCUL)
16h - Homenagem a Luiz Saldanha, Miguel Telles Antunes e António Galopim de Carvalho - Distinção com o Medalhão da Vila de Sesimbra
Luiz Saldanha
Foi em agosto de 1971, quando o professor Luiz Saldanha desenvolvia os trabalhos de investigação para o doutoramento sobre a fauna da costa da Arrábida, que os pescadores e apanhadores de algas da praia dos Lagosteiros o levaram, juntamente com o seu tio Eduardo da Cunha Serrão, a conhecer a Pedra da Mua e as suas evidências do milagre da Senhora do Cabo. Luiz Saldanha percebeu que as pegadas de mula tinham afinal sido deixadas por dinossauros, que por ali tinham passado muitos milhões de anos antes. Enquanto biólogo, sabia que o estudo dos trilhos seria limitado, pelo que rapidamente entrou em contacto com o seu colega de Faculdade dedicado à Geologia, Miguel Telles Antunes, e o trouxe para o Cabo. Juntos por cá ficaram a estudar: o professor Telles Antunes as pegadas e o professor Luiz Saldanha a especificidade do mar da Arrábida e as suas inúmeras espécies.
Desde 1965, que o professor Luiz Saldanha defendia a criação de uma reserva marinha na costa da Arrábida. Foi pioneiro no domínio da biologia marinha em Portugal, começou o ensino universitário das disciplinas de biologia marinha e participou em projetos científicos e expedições oceanográficas por todo o mundo, que ilustrava com desenhos a lápis e aguarela.
Em 1998, um ano depois da sua morte, o seu nome é atribuído à primeira reserva marinha em Portugal, na costa da Arrábida: o Parque Marinho Professor Luiz Saldanha.
Miguel Telles Antunes
Miguel Telles Antunes foi o primeiro paleontólogo a deslocar-se a Sesimbra para estudar as pegadas de dinossauros. Começou por identificar e classificar os trilhos da Pedra da Mua, mais tarde descobriu os trilhos dos Lagosteiros e foi a quem chamaram para mostrar a Laje da Pedreira do Avelino. São suas as primeiras publicações sobre dinossauros em Sesimbra.
Vários outros investigadores de todo o mundo o antecederam no estudo geológico do território, mas muitos o seguiram no conhecimento das pegadas. Sabe-se que os trilhos da Pedra da Mua deram início a uma revolução científica na compreensão daqueles misteriosos animais. Pela primeira vez, na Pedra da Mua encontraram-se evidências do seu comportamento gregário (em grupo). Este facto, retira os dinossauros de uma vez por todas da estrita esfera dos répteis e o eco desta descoberta reflete-se no filme Parque Jurássico, de Steven Spielberg, de 1993, que reproduz o comportamento dos animais conforme as pegadas deixadas na Pedra da Mua.
António Galopim de Carvalho
O professor António Galopim de Carvalho envolveu a comunicação social e o poder político na divulgação dos dinossauros em Portugal. Nomeado diretor do Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa, em 1993, aproveitou a visibilidade do cargo para, como ninguém antes, apaixonar os portugueses pelos dinossauros. Entre exposições, divulgação nos media e contactos que foi construindo com o poder político, comunicou de uma forma sábia os dinossauros. Mostrou ao país que possui uma riqueza patrimonial como poucos. Das suas gravatas com dinossauros até à formulação do conceito de Geomonumento, investiu grande parte do seu tempo, até aos dias de hoje, na valorização e salvaguarda do património geológico e paleontológico nacional.
Através do professor Galopim todos os portugueses ficaram a saber que, há muitos milhões de anos, por aqui passaram dinossauros e começaram a ter orgulho no seu património geológico, que as rochas podem ser monumentos. Pode ter sido um caminho duro, mas esta campanha de divulgação nacional foi fundamental para sensibilizar o poder político, das autarquias ao Presidente da República, para a valorização, conservação e classificação as pegadas de dinossauros. Podia parecer uma quimera no início, mas hoje Portugal tem sete Monumentos Naturais, seis dos quais incluem pegadas, e cujos processos de classificação contaram com a sua colaboração científica. Três desses monumentos encontram-se em Sesimbra e estão conservados, musealizados ou em processo de musealização e são visitáveis de modo autónomo ou em visita acompanhada.