Indústria Conserveira em destaque no Encontro Património e Cultura Marítima
«Ao contrário do que se pensa, as conservas não têm nada de conservantes. A verdade é que esta é uma forma muito versátil e económica de comer peixe, porque de conserva este produto só tem mesmo o nome». Foi com estas palavras que a nutricionista Susana Conceição começou por falar sobre a importância das conservas no IV Encontro de Património e Cultura Marítima – 2000 anos de Indústria Conserveira, que decorreu no Centro Cultural Costeiro, a 15 de novembro.
Para além da profissional de saúde, a iniciativa promovida pela Câmara Municipal de Sesimbra, no Dia Nacional das Conservas de Peixe, contou com a presença de vários investigadores, oradores e empresários entre os quais Carlos Macedo, da Organização de Produtores de Pesca (Artesnal Pesca), Manuel Cardoso, da empresa de venda de peixe Fixe em Casa Ld.ª, e José Nero, das Conservas Nero, de Matosinhos, cuja família foi proprietária de uma das conserveiras mais emblemáticas de Sesimbra. «A fábrica Nero nasceu em Sesimbra com o meu avô e depois, por motivos que não conheço, ele transferiu a fábrica da família para Matosinhos e com ele foram muitas famílias daqui», começou por contar o sucessor da empresa Nero.
No encontro estiveram também presentes muitas das antigas conserveiras, que partilharam memórias e histórias de vida. «Quando a sirene tocava, fosse dia ou noite, tínhamos de largar tudo, ir a correr para lá e se chegássemos atrasadas já não nos deixavam entrar», conta Maria, 84 anos, uma das muitas mulheres que trabalharam na indústria conserveira que durante sete décadas marcou a economia de Sesimbra. «E só podíamos ir à casa de banho uma vez, mesmo que estivéssemos várias horas seguidas a trabalhar, porque quando havia peixe não se podia parar por nada”, acrescentou.
O encontro abordou muitas outras questões, nomeadamente temáticas relacionadas com o presente e com o futuro não só da indústria conserveira, mas também de vários setores a ela associados. «A pesca, por exemplo, atravessa um momento de novos desafios e oportunidades, e ainda há um grande estigma sobre a profissão de pescador», realçou Carlos Macedo, da Artesanal Pesca.
Andreia Conceição, diretora do Museu Marítimo de Sesimbra, lembrou o trabalho desenvolvido pelo equipamento cultural que mostra como certos ofícios foram e são fundamentais na identidade e salvaguarda da memória coletiva. «Hoje, os museus são entidades vivas e um dos nossos propósitos é unir várias vertentes. Assim, no próximo dia 29 de novembro teremos a inauguração da Mercearia Ideal, um dos espaços mais emblemáticos de Sesimbra, onde iremos ter a promoção dos produtos locais entre os quais as Conservas de Sesimbra», destacou a arqueóloga municipal.
Já Pedro Inácio, vice-presidente da Associação Portuguesa de Museologia (APOM) agradeceu à Câmara Municipal de Sesimbra pelo trabalho desenvolvido e pela dinâmica do Museu Marítimo na sua envolvência com a comunidade local. «O trabalho que tem sido feito prima pela qualidade e a APOM congratula-se pelas vossas boas práticas museológicas, que avaliamos de excelência e pela visão e pelo caminho da sustentabilidade e inovação, porque os museus devem contemplar tanto o passado como o presente e o futuro».
Felícia Costa, vice-presidente da Câmara Municipal, lembrou todo o processo de instalação do Museu, na Fortaleza de Santiago. «Depois de uma verdadeira batalha, hoje temos um espaço museológico, num edifício histórico que é património de todos nós. Com muito orgulho vejo que todos os objetivos, conceitos e conteúdos foram atingidos e atualmente o nosso Museu é muito mais do que um museu de história. Porque só respeitando o passado e a nossa herança podemos ter um futuro, e é este o caminho a seguir».
No IV Encontro de Património e Cultura Marítima – 2000 anos de Indústria Conserveira os presentes tiveram a oportunidade de degustar algumas das novas criações da empresa Nero, da Fixe em Casa e uma conserva de polvo com pinhão, feita em casa, pela gastrónoma sesimbrense, Maria Papoila.
A performance intitulada de As Conserveiras, pelo grupo de atores voluntários do Museu Marítimo de Sesimbra, com direção artística de Raquel Belchior, encerrou o encontro.