MOAGEM DE SAMPAIO: Núcleo aberto ao público
A cerimónia contou com a presença dos presidentes da Câmara Municipal, Augusto Pólvora, da Assembleia Municipal, Odete Graça, da Junta de Freguesia do Castelo, Francisco Jesus, vereadores e várias entidades locais e regionais envolvidas no processo de recuperação.
Na sua intervenção, Augusto Pólvora começou por agradecer a todos os que permitiram que esta obra se concretizasse. «Quero destacar o apoio da Associação para o Desenvolvimento Rural da Península de Setúbal (ADREPES), que foi fundamental, e aos técnicos dos serviços de cultura, projetos, logística e obras, que se empenharam nestes trabalhos, e sobretudo ao Rui Costa Marques, da Divisão de Cultura, o grande entusiasta desta recuperação», elogiou.
O presidente da autarquia salientou também o papel do senhor Arménio Correia, um carpinteiro local, que recuperou grande parte das estruturas, de Francisco Moura, maquinista da Fábrica da Pólvora de Vale de Milhaços, que conseguiu colocar em funcionamento o motor original do edifício, e de vários moleiros e profissionais, que ajudaram a recuperar todo o ambiente da Moagem.
Os trabalhos rondaram os 160 mil euros, comparticipados em 60 por cento pelo Programa de Desenvolvimento Rural, ao abrigo de uma candidatura apresentada pela Câmara Municipal à ADREPES. «Tivemos o grande prazer de confirmar que são verbas bem aplicadas e estamos naturalmente muito satisfeitos, por isso damos os parabéns à Câmara Municipal de Sesimbra por ser promotora deste projeto», sublinhou António Pombinho, presidente da ADREPES.
«É um projeto emblemático, que mostra como é possível valorizar o património existente e transformá-lo também num meio de desenvolvimento, ou seja, é um exemplo de como é possível ter, por um lado uma parte museológica, e por outro um espaço de valorização da produção atual em que os produtores locais vão ter oportunidade de dar a conhecer os seus produtos aos consumidores de uma forma mais direta», destacou.
A presidente da Assembleia Municipal, Odete Graça, relembrou o passo importante que foi dado, em fevereiro de 1993, quando a Câmara Municipal negociou com Manuel Félix dos Santos, responsável pela Moagem na altura, a compra dos engenhos do edifício. «A degradação do espaço era bem visível, e ele sabia que se a autarquia adquirisse as máquinas havia uma garantia da sua continuidade», explicou. Os dois motores, a bancada com os três casais de mós e os mecanismos de limpeza do cereal foram comprados por 400 contos.
«Apesar de não ter disponibilidade financeira para ficar com o imóvel, o que só aconteceu anos depois, a autarquia estabeleceu naquele momento o ponto de partida para transformar este espaço num museu, como vem referido na notícia do Boletim Municipal, e que o senhor Manuel ainda guarda no bolso», contou.
Histórias, rostos e saberes dignificados
Ao longo das várias salas do Núcleo Museológico da Moagem de Sampaio, os visitantes podem observar os engenhos recuperados, compreender a sua história, conhecer os rostos de quem lá trabalhou e as suas ferramentas, o circuito de funcionamento da unidade, entre muitos outros saberes e curiosidades relacionados com o edifício e com a temática rural.
Localizado na sala poente, o primeiro motor da estrutura, da marca Hornsby-Stockport, é uma das peças centrais do espaço. Pelo importante papel que teve na recuperação do engenho, Francisco Moura, maquinista da Fábrica da Pólvora de Vale de Milhaços, vai ficar para sempre ligado à Moagem de Sampaio, figurando num dos painéis do Núcleo. «Foi um projeto muito interessante e sobretudo um grande desafio dar-lhe vida», confessou, garantindo que tudo foi feito sem manuais.
Para Arménio Correia, carpinteiro há 60 anos, a recuperação de todas as madeiras da estrutura começou como um trabalho mas ao longo dos anos transformou-se numa paixão. «Há muita gente a gostar disto porque é contagiante», assumiu. Aprendeu com o mestre Antero Covas, que fez a escada que dá acesso ao piso superior da Moagem, e sente-se muito feliz por agora também ele ter contribuído para dar vida e segurança ao espaço. «Isto para mim é como se fosse um clube ou uma associação sem fins lucrativos, onde se trabalha por carolice».
A esposa, Emília, garante, em tom de brincadeira, que muitas vezes lhe disse: «Passas lá tantas horas, que o melhor é lá dormires».
Também Manuel Félix dos Santos sente de forma especial a abertura ao público do edifício. «Ver isto como está agora é maravilhoso, não tenho palavras», revelou, visivelmente emocionado. Começou a frequentar o espaço ainda em criança, com o pai, funcionário da casa desde 1929. Depois do 25 de Abril, e com o fecho da empresa que explorava a Moagem, ficou com a responsabilidade de tomar conta do edifício.
«Sentia um grande amor por isto e estava habituado a vir para aqui ajudar o meu pai quando ele já era velhote», referiu. Foram precisos quase 20 anos para deixar que as portas se fechassem por completo. Quando a Câmara Municipal decidiu iniciar o projeto de recuperação e musealização, nem queria acreditar. «O senhor Rui Costa Marques foi um milagre, porque foi fora de série e batalhou muito por isto», garantiu. Manuel Félix ficou duplamente feliz no dia da inauguração, pois duas décadas depois voltou a reviver também os momentos captados pela câmara de filmar de um amigo, que registou as tarefas da Moagem.
O filme está disponível numa bancada multimédia, onde também é apresentado o livro Engenhos de Moagem de Cereais editado pela Câmara Municipal no final do ano passado.
O programa da inauguração, que incluiu ainda uma exposição de veículos do Clube de Automóveis Antigos da Costa Azul, uma mostra de produtos tradicionais da zona rural do concelho e de alfaias agrícolas, cedidas por Geraldino Penim Marques, encerrou com a apresentação de dois livros de Mouette Barboff: A Tradição do Pão em Portugal, dedicado à grande diversidade de pães regionais portugueses, e Terra Mãe Terra Pão, editado pelos CTT em 2011, e que refere a Farinha Torrada de Sesimbra.
O Núcleo Museológico da Moagem de Sampaio está aberto de quarta a domingo, das 9 às 12.30 e das 14 às 17.30 horas. Às sextas-feiras, das 16.30 às 19 horas, o espaço recebe os cabazes com frutas e legumes dos agricultores do projeto PROVE –Promover e Vender, e produtores de sabores regionais.
Informações: 21 228 85 00 / museu@cm-sesimbra.pt