PATRIMÓNIO: Fortaleza abre ao público dia 25
Depois de uma intervenção apoiada pelo QREN, que se iniciou em 2012 e englobou uma análise estrutural do monumento, remoção de elementos estranhos à estrutura primitiva e restauro de todo o edificado, a Fortaleza de Santiago, situada no Núcleo Urbano Antigo de Sesimbra, no centro do areal, vai reabrir ao público totalmente renovada.
Na inauguração, que conta com a atuação de Teresa Salgueiro, estará patente uma exposição sobre a história do monumento e sobre os trabalhos que foram levados a cabo nos dois últimos anos.
O edifício vai passar a albergar o Posto de Turismo de Sesimbra, uma cafetaria, salas de exposições e espaço multiusos com uma programação cultural regular. Em breve, uma parte do edificado receberá o Museu Marítimo de Sesimbra.
O processo de passagem do monumento para o município
A Fortaleza de Santiago convive com a comunidade sesimbrense há 365 anos. Foi construída numa época em que o perigo chegava do mar e as fronteiras marítimas tinham de ser defendidas, contudo, o curso da história fez com que fosse perdendo preponderância defensiva.
Os habitantes da vila habituaram-se à presença desta construção, bela e imponente, no centro da praia, e aceitaram-na como parte integrante da sua terra. Talvez por isso, quando o edifício entrou em processo de degradação, o desejo de o preservar e de o tornar público tenha passado a ser um desejo, tanto da Câmara Municipal como dos sesimbrenses.
Há vários registos documentais de propostas para utilização do monumento, mas só em 2006 foi possível chegar a um acordo com a Guarda Nacional Republicana para abertura do espaço exterior ao público.
A 4 de maio desse ano, Dia do Município, as portas abriram-se e os sesimbrenses puderam entrar na Fortaleza de Santiago, pela primeira vez, sem constrangimentos, num momento que marcou a história recente do município.
Desde então, embora se apresentasse sinais evidentes de degradação, a Fortaleza recebeu varias atividades e tornou-se num dos polos de atração da vila, ainda que qualquer intervenção ou mesmo utilização estivesse sempre dependente da GNR.
A Câmara Municipal prosseguiu e intensificou entretanto os contactos com as entidades responsáveis pelo espaço para tentar obter a sua posse e dar início à recuperação, cada vez mais urgente.
Em 2008, a GNR subscreve a proposta de cedência apresentada pela autarquia e no mesmo ano avança um primeiro programa de ocupação, incluído na candidatura da Valorização da Frente Marítima de Sesimbra, apresentada pela Câmara Municipal e aprovada pelo QREN.
A formalização da cedência dá-se em 2010. Com este acordo, a autarquia toma posse plena da ala nascente, que correspondia sensivelmente a metade dos edifícios, durante um período de 87 anos.
Apesar de limitada, a solução revelou-se uma importante conquista para o município e serviu para abrir caminho aos trabalhos de recuperação. Já com as obras em curso, é, finalmente, alcançado um acordo que dá posse definitiva da totalidade do monumento à Câmara Municipal, decisão histórica que alterou os pressupostos da intervenção, pois permitiu olhar para o conjunto arquitetónico no seu conjunto, e criar novas valências.
Todo este longo processo, que se iniciou em 2006 e terminou em 2014, só foi possível com o empenho total da autarquia, tanto ao nível das negociações que tornaram possível a passagem da Fortaleza de Santiago para domínio público, como nos trabalhos de restauro, que conseguiram encontrar e recuperar a verdadeira essência do monumento, símbolo da nossa terra.
Hoje, o concelho de Sesimbra está mais rico, não só porque tem um espaço público de excelência, no coração da vila, mas sobretudo porque soube, mais uma vez, manter viva a sua história e o seu património coletivo.
A História
Após a Restauração da Independência, em 1640, D. João IV teve necessidade de reestruturar toda a defesa costeira devido ao risco de ataques marítimos relacionados com as guerras com Espanha e Holanda, e com a pirataria. Assim, a partir desse período foram edificados ao longo da costa portuguesa pequenos fortes, dos quais a Fortaleza de Santiago é um importante exemplo.
O seu autor, o arquiteto e engenheiro militar holandês João de Cosmander, especialista em arquitetura defensiva, esteve ligado à construção de outras importantes fortificações como a de Almeida ou de Elvas, Património Mundial. Os trabalhos de construção decorreram entre 1642 e 1649, e julga-se que terão sido iniciados a partir do antigo Forte de Ancua, que existiria onde hoje se situa o baluarte nascente da Fortaleza.
Ao longo dos anos, o edifício foi recebendo alterações e adaptações, e no século XX, embora se tenha mantido como quartel militar, começou a perder preponderância como estrutura defensiva e a degradar-se. Foi neste contexto que a Câmara Municipal iniciou um conjunto de contactos e iniciativas com vista a conseguir a sua posse, para começar a recuperação e musealização.
Depois de várias negociações com a GNR e a Direção-geral do Tesouro e Finanças, a autarquia conseguiu abrir a Fortaleza ao público, em 2006, e mais tarde, em 2011, avançar com a sua recuperação, com base numa candidatura ao QREN. Tratou-se de um trabalho minucioso e especializado, sempre muito bem documentado e acompanhado por técnicos ligados à história e à arqueologia, pois a intenção foi preservar, ao máximo, a estrutura inicial.
A Obra
Intervir num edifício com mais de três séculos, e com a importância patrimonial da Fortaleza de Santiago, foi uma tarefa de enorme responsabilidade, que implicou um grau de empenho e exigência elevado por parte de todos os elementos da equipa. Não se tratou de uma mera obra de construção civil, mas sim de um conjunto de trabalhos de restauro, muito bem documentados, elaborados por uma equipa multidisciplinar que envolveu arquitetos, engenheiros e operários especializados, sempre acompanhada por técnicos ligados à história e à arqueologia.
Antes de se iniciar a intervenção foi necessário recolher o máximo de informação sobre o conjunto edificado, mas também sobre o seu enquadramento histórico e mesmo a relação que estabeleceu com o tecido urbano e com a comunidade. Pretendeu-se, sobretudo, aproveitar esta oportunidade, única, para aprender com o edifício, deixando que fosse ele a contar-nos a sua própria história. Só desta forma seria possível restituir-lhe a sua verdadeira essência.
O principal objetivo da intervenção foi possibilitar a implementação de um programa de ocupação com várias valências culturais num edifício de cariz militar, mantendo intacta a estrutura primitiva. Em muitos pontos isso foi possível, noutros, foi necessário procurar soluções alternativas que permitissem alcançar o pressuposto inicial sem desvirtuar o enquadramento original.
Aliás, foram muitos os casos em que o acompanhamento arqueológico feito ao longo da obra revelou aspetos que, para serem mantidos, obrigaram a adaptar o projeto.
Importa salientar que toda a intervenção foi norteada por um princípio de reversibilidade, o que significa que não foram feitos quaisquer roços nas paredes originais para passagem de infraestruturas ou outras finalidades. Em vez disso, optou-se por recorrer a paredes técnicas e pavimento para passagem dessas infraestruturas, necessárias à funcionalidade do edifício.
A solução permite que numa futura intervenção em que se pretenda dar um novo uso à Fortaleza baste remover as paredes técnicas e a estrutura primitiva ressurgirá intacta.