SESIMBRA, MEMÓRIA E IDENTIDADE: A Indústria Conserveira
«A minha mãe já lá trabalhava e eu fui carregar latas e distribui-las às mulheres», relembrou Noémia Leandro, 91 anos, que com apenas 9 entrou para a fábrica Saupiquet, conhecida por “A Francesa”.
Eram tempos difíceis, e uma das memórias mais presentes entre as trabalhadoras são os riscos que corriam para matar a fome. «Ia trabalhar com uma fatia de pão na algibeira e depois, às escondidas, juntava-lhe um bocado de albacora», afirmou Clementina Brito, 97 anos, que começou o ofício de conserveira na fábrica A Primorosa, apelidada de “Caveira”, por ficar situada junto ao cemitério, e a última a fechar em 1961.
Segundo Zélia Amigo, 78 anos, que também trabalhou na mesma indústria, se fossem apanhadas eram castigadas e podiam ficar uma semana em casa e sem receber.
Apesar das dificuldades, as conserveiras recordam boas memórias daqueles anos. «Tenho muitas saudades, porque quando os patrões não estavam nós riamo-nos muito», confessou Albertina Cagica, outra das convidadas da sessão, que para além do seu testemunho, cedeu ao Museu Municipal o cartão da Caixa Sindical de Previdência do Pessoal da Indústria de Conservas de Peixe e o do Sindicato Nacional dos Operários da Indústria de Conservas do Distrito de Setúbal.
Para além de antigas funcionárias, a iniciativa reuniu também os descendentes das fábricas A Persistente, que ofereceu ao Museu fotografias antigas e uma revista da época, A Primorosa e A Bela Vista.
Dois mil anos de tradição
A indústria de conservação de pescado na vila de Sesimbra tem uma tradição com cerca de dois mil anos, como comprovam os vestígios arqueológicos romanos encontrados na Avenida da Liberdade, que indicam a existência de um centro de preparados piscícolas naquela zona.
A atividade assume, no século XVI, um destaque importante no abastecimento das caravelas que partiam para a expansão ultramarina, e, anos mais tarde, passa também a ter um papel preponderante na alimentação da população.
No entanto, é no século XX que vive o seu período áureo, existindo registos que revelam a presença de 12 fábricas na vila, que empregavam mais de mil homens e mulheres.
Os testemunhos das antigas funcionárias estão disponível no canal cmsesimbra do Youtube e em .